domingo, 5 de janeiro de 2014

Revisitando o passado 1: o machismo

Revisitar o passado é sempre uma sensação interessante, relembrar as bobeiras que falávamos é uma das formas de nos manter longe de certos pensamentos e atitudes. Muito mais do que a “moda do politicamente correto”, afirmada por conservadores incoerentes, a atitude de mudança no foco e nas percepções é um amadurecimento. A história não se apaga, mas é datada. Isso cria uma liberdade de mudança tão grande que me permito afirmar a tristeza daquele que se mantém na escuridão por um falso status de “coerente” durante a vida.

A atitude de revisitar o passado foi a leitura de um dos primeiros textos que fiz para a Universidade. Faculdade de Química, com meus 18 anos, escrevi o texto "O segredo das donas de casa” que possuía os dizeres:

“Agora não é preciso usar sal, açúcar, leite ou qualquer outra receita da vovó para tentar retirar manchas difíceis como vinho tinto, café, gema de ovo, refrigerante, entre outras. Temos a química sendo, cada vez mais, útil para as donas de casa e empregadas.
Químicos a cada momento pensam em inovações. Uma delas foi o alvejante sem cloro, que solucionou o grande dilema da dona de casa “será que se eu colocar essa camisa na água sanitária ela vai desbotar?”. Quem nunca ouviu a mãe ou a avó falando isso?

Como conseqüência, a criação de alvejantes sem cloro cresce no mercado cada vez mais. Também, que dona de casa vai querer correr o risco de estragar sua roupa com a água sanitária (hipoclorito de sódio) se nós temos no mercado o fantástico Vanish poder O2 com sua fórmula fatal às manchas?” (Outubro de 2008)


Não precisamos de tanta profundidade na análise do meu discurso para perceber que naquela época, ao entrar em sala de aula, eu estaria propenso a verbalizar discursos machistas. A função de limpeza das roupas era da mãe, da avó, da empregada. Lembro-me que essa introdução buscava chamar o leitor para o resto do texto, era uma forma de motivação... Um jeito mais descontraído de falar... Mas que estava por trás dessa motivação? A perpetuação de um estereótipo de gênero.
Hoje, em 2013-2014, tenho um discurso a favor das minorias, acredito no empoderamento de indivíduos e grupos sociais excluídos historicamente, trabalho com direitos humanos, defendo ferozmente a necessidade da formação do professor para a revisão de seus valores. Educar em uma aula de ciências é uma atitude que deve ir ao encontro dos Direitos Humanos. Da mesma forma, a formação do professor de Ciências deve contribuir na mudança dessas visões.
Não me julgo tanto porque na época eu possuía apenas a visão de gênero cristalizada pela sociedade e, naquele momento não tinha “saído da caixa”.  Porém, a atitude de olhar o passado com a capacidade de análise de hoje pode contribuir bastante para pensar passos futuros. Essa atividade de memória é fundamental no pensar a formação do outro.

Para ser machista em nossa sociedade atual basta nascer e escutar o outro, perceber suas atitudes e agir igual, sem muita crítica. Dessa forma, se você não der a sorte de cair em uma família bastante diferente da maioria das famílias brasileiras você terá grandes chances de receber uma única visão sobre os gêneros. Sem pensar muito você terá grandes chances de acreditar que a sua visão é a "natural".

Mas como mudar? A mudança pode começar a partir do exemplo de outras visões de mundo. Exemplos que mostrem que “O natural” não é natural, mas uma convenção social. Exemplos que mostrem outras histórias possíveis. A mudança começa através do diálogo, do questionamento, da escuta sensível das demandas sociais, da abertura para o novo.
Formar-se para não reproduzir o machismo, mostrar que há possibilidades de pensar de uma outra forma é uma dura tarefa e, por isso, trago aqui esse  trecho do texto de 2008. Ao ser comparado com um texto de hoje alguns podem dizer que há incoerências, mas digo que há amadurecimento e, para isso:

O diálogo é a solução e o exemplo é o caminho.

Não há mudanças sem diálogo. Formar e formar-se para repensar as concepções cristalizadas de sociedade não é algo que possa ser imposto. Ninguém impôs o machismo, mas muitos deram exemplos machistas em nossa vida. Depois de tantas repetições em músicas, filmes, novelas, em nossa família... Esses exemplos passam a ser considerados o “natural”. A saída do considerado “natural” é a necessidade. Devemos mostrar ou nos mostrar, de forma bem argumentada, que outra visão de sociedade é possível. Esse é um dos caminhos para nossa sensibilização e para a sensibilização do outro. 

O diálogo, moderado sempre que possível, e a certeza de que o outro também pode mudar é uma forma de aproximar o outro de uma sociedade diferente, porém, o diálogo por si não basta e é através do exemplo que conseguiremos que esse diálogo seja efetivo. Mostrar outra possibilidade de mundo e agir de uma forma transformadora. 

Não seria muito difícil construir um texto diferente, mas naquela época e com aquela cabeça outra coisa não poderia surgir... Faço questão de trazer essa discussão para cá, revisitar um texto antigo e criticá-lo é mostrar que nossa trajetória é construída por falhas, acertos, reestruturações e sempre devemos ter a consciência que a mudança é algo possível. Só assim conseguiremos formar 
uma rede de educadores que pensem na construção de uma sociedade mais justa. 
Para finalizar acredito que seja possível mostrar uma outra escrita do texto... simples mudanças e um outro sentido expresso. São detalhes que constroem os discursos, favorecem o diálogo e dão os exemplos.

“Agora não é preciso usar sal, açúcar, leite ou qualquer outra receita da vovó para tentar retirar manchas difíceis como vinho tinto, café, gema de ovo, refrigerante, entre outras. Temos a química sendo, cada vez mais, útil para as donas de casa e empregadas.  
Químico@s (Químicos e Químicas) a cada momento pensam em inovações. Uma delas foi o alvejante sem cloro, que solucionou o grande dilema da dona de casa “será que se eu colocar essa camisa na água sanitária ela vai desbotar?”. Quem nunca ouviu a mãe ou a avó falando isso?

Como conseqüência, a criação de alvejantes sem cloro cresce no mercado cada vez mais. Também, que dona de casa  pessoa vai querer correr o risco de estragar sua roupa com a água sanitária (hipoclorito de sódio) se nós temos no mercado o fantástico Vanish poder O2 com sua fórmula fatal às manchas?” 

2 comentários:

Cristiano B. Moura disse...

O escrito Alex Castro também é bastante atento a essas questões de gênero. Pode parecer pouco, mas faz bastante diferença.

Ele fez uma espécie de "manual" sobre como evitar o sexismo na linguagem.

http://alexcastro.com.br/sexismo/

gloria disse...

Muito bom essa auto analise das nossas próprias vivências Roberto. Também sempre me lembro e tenho contado varias vezes de como me sentia o maximo na escala social assim que entrei na faculdade ate um colega militante comunista me 'ensinar' a dar o real valor aos trabalhadores rurais que aram e plantam o que nos mantem vivos : a comida de cada dia. Esse caminho e longo mas sinto que você avançou rápido e assim contribui com o avanço sempre aberto a mais de todos nos seus amigos.